sábado, 26 de julho de 2014

Família e Escola: parceria possível e necessária

Estamos no período de volta às aulas e aproveito para escrever sobre uma parceria fundamental para o desenvolvimento saudável da criança: família e escola.
 
 
 
Tanto escola como família são instituições educacionais e como tarefas educativas principais destas temos o processo de socialização primária.
 
De acordo com Vygotsky (1981 apud Andrada, 2003) o outro exerce um papel fundamental no desenvolvimento do indivíduo, visto que é através das interações sociais e das significações socialmente construídas que nos desenvolvemos.
 
No Brasil, essa relação foi fortalecida por volta da década de 1950, durante o movimento higienista. Porém, nesta primeira relação a ênfase era dada aos cuidados com higiene, alimentação e prevenção de doenças.
 
Após este período, desenvolveu-se a ideia de que a escola é responsável pela educação formal da criança, enquanto a família tem como função e responsabilidade a educação informal.
 
Esses papeis adotados denotavam a tentativa de relacionamento entre essas instituições, porém, havia desencontros quanto às suas responsabilidades educativas.
 
Atualmente, a crença predominante é a de que existe uma ausência da família no processo educacional e um fracasso do sistema educacional.
 
Tais cenários não se mostram satisfatórios, pois não existe um equilíbrio adequado entre essas duas instâncias que exercem grande influência no desenvolvimento social, cognitivo, emocional e psicológico das crianças e adolescentes.
 
Mas então, como pode-se resolver esta questão?
 
 
É importante ressaltar que família e escola apresentam modelos de educação muito semelhantes e que a identificação destas práticas se faz de suma importância.
 
Estas práticas podem ser coercitivas ou indutivas. Na primeira, há o uso de ações punitivas ou desagradáveis, com a finalidade de controlar o comportamento da criança ou do adolescente, porém, tal prática não favorece a reflexão sobre a mudança do comportamento nos indivíduos, bem como a consequência de seus atos, pois gera nestes medo, ansiedade e raiva. No modelo indutivo, dá-se importância às explicações lógicas sobre o resultado de seu comportamento, favorecendo a compreensão do mesmo, bem como o desenvolvimento da empatia.
 
Tanto escola como família são duas partes que favorecem o desenvolvimento, bem como o problema de comportamento manifesto, assim, a promoção desta díade mostra-se relevante. Quando escola e família identificam os modelos utilizados por uma e pela outra, a busca de pontos de convergência, erros, acertos e possibilidades, torna-se mais clara e objetiva.
 
Faz-se importante haver entre esses "lugares" "um espaço de acolhimento, de ajuda e de aprendizado mútuo, de estratégias positivas e eficazes no crescimento e na educação do jovem e da criança". (Silveira, 2011, p. 183)
 
Quando existe uma relação de confiança e credibilidade, a troca entre os membros que constituem essas duas instâncias são mais aceitas, auxiliando em um manejo mais adequado das situações emergentes.
 
É importante que tanto escola como família repensem sua maneira de se comunicar, visando como meta o estabelecimento da confiança e da parceria.
 
E para que haja essa relação, precisamos nos mobilizar para tal.
 
É preciso deixar de lado a culpabilização do outro e cada personagem desta história assumir seu papel, sua responsabilidade, seus erros e seus acertos, pois, assim, conquistaremos um espaço de cooperação e compreensão.
 
Todos fazemos parte de uma rede social que busca, cria caminhos e possibilidades para um desenvolvimento mais saudável e harmonioso.
 
E essa busca deve ser ainda mais cuidadosa, harmoniosa, consciente e clara, quando falamos de crianças e adolescentes, pois estes são seres em DESENVOLVIMENTO!
 
 
 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
 
 
ANDRADA, Edla Grisard Caldeira de. Família, escola e a dificuldade de aprendizagem: intervindo sistemicamente. Psicol. Esc. Educ. (Impr.),  Campinas ,  v. 7, n. 2, Dez.  2003.
 
GASPARIAN, Maria Cecília Castro. O psicopedagogo institucional na construção da solidariedade entre a escola a família e a comunidade. Constr. psicopedag.,  São Paulo ,  v. 20, n. 21,   2012  
 
SILVEIRA, Luiza Maria de Oliveira Braga. A relação família escola: uma parceria possível? In WAGNER, Adriana. Desafios Psicossociais da Família Contemporânea: pesquisas e reflexões. Porto Alegre: Artmed, 2011. p. 181 - 190.
 
SILVEIRA, Luiza Maria de Oliveira Braga; WAGNER, Adriana. A interação família-escola diante dos problemas de comportamento da criança: estudos de caso. Psicol. educ.,  São Paulo ,  n. 35, dez.  2012 .
 
 
 

 

sábado, 18 de janeiro de 2014

O que estou sentindo? - A difícil (mas não impossível) tarefa de reconhecer os nossos sentimentos e agir perante eles

 
 
No nosso diverso cenário contemporâneo, podemos observar um grande incentivo ao desenvolvimento de competências cognitivas, como, por exemplo, métodos pedagógicos inovadores, ensino bilíngue; competências tecnológicas; e habilidades motoras.
 
E tal incentivo ocorre cada vez mais cedo e temos crianças mais precoces, espertas, dominando todos os aparatos de última tecnologia.


 
 
 
Tal fato, quando ponderado, não é negativo, pois diz do contexto histórico cultura no qual vivemos e que nossas crianças estão inseridas.
 
Porém, venho observando uma dificuldade das crianças em reconhecer e lidar com seus sentimentos, como também não conseguem, de modo adequado, fazer o mesmo com os sentimentos de outrem, acarretando em dificuldades em salas de aula, isolamento social, bullying e conflitos familiares, por exemplo.
 
 
 
Para falar sobre isso, vamos partir do início. O que é saber reconhecer sentimentos? A esta capacidade, damos o nome de Inteligência Emocional, que significa sermos capazes de nos motivarmos e permanecermos firmes diante de dificuldades, na medida em que controlamos os nossos impulsos imediatos, de modo a permitir que consigamos pensar e avaliar a situação, ao invés de ficarmos aflitos e angustiados.
 
Daniel Goleman (1994), alega que a Inteligência Emocional é a maior responsável pelo sucesso ou insucesso de uma pessoa.
 
Isto ocorre, pois quando a possuímos de modo adequado, tendemos a nos sentir satisfeitos e com maior controle de nossos hábitos mentais, acarretando, portanto, em uma maior produtividade. Já aqueles que não possuem tal controle emocional, tem uma maior probabilidade em concentrar suas energias em conflitos internos e não em seu objetivo real.
 
Com isso, o que pretendo dizer?
 
Estamos incentivando e estimulando as crianças em diversas áreas, mas estamos nos esquecendo de ensiná-las algo demasiado importante e que diz delas: os seus sentimentos!
 
E isto pode ser feito quando perguntamos ao nosso filho como ele está, como se sente, o que ele acha que pode fazer com o que está sentindo ou de que maneira pode resolver seu problema ou questão emocional. Na escola também, enquanto educadores, observar e falar sobre os conflitos que ocorrem em sala de aula, permitir que os alunos expressem seus sentimentos. Precisamos compreender os sentimentos deles, seja como pais, professores ou qualquer pessoa que seja de seu convívio...
 
 
 
Mas, agora, eu me faço (e te faço) uma indagação: Por que é tão difícil falarmos de sentimentos com as crianças?
 
Temos a correria do dia a dia que realmente atrapalha, jornadas extensas de trabalho, acúmulo de funções, que podem ser empecilhos para tal fato ocorrer. E com este cenário, fica mais "fácil" nos distanciarmos de nós mesmos e acabamos por "esquecer" de compreender o que nós mesmos estamos vivenciando enquanto sentimentos, emoções e isto interfere de maneira direta em todos os nossos tipos de relacionamentos, o que nos frustra e nos faz entrar em conflitos, porque não dizer, totalmente desnecessários...
 
 
Entretanto, nunca é tarde para mudarmos e começarmos a entender o que se passa em nosso íntimo e o que podemos fazer com o que sentimentos, assim como, aprendermos a perceber aquilo que o outro, que convive conosco, está sentindo.
 
E você, sabe o que sente? Sabe reconhecer-se? E se não, está disposto a se "re" conhecer?
 
 
 
 
Bibliografia Utilizada
 
BERGAMINI, Cecília Whltaker. Inteligência emocional. Rev. adm. empres.,  São Paulo ,  v. 36, n. 4, dez.  1996
 
GOLEMAN, Daniel. Inteligência Emocional. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 1994. 375 p.


domingo, 20 de outubro de 2013

Uma Geração de Consumo ou o Consumo de uma Geração?


Atualmente, observamos um grande apelo consumista voltado ao público infantil, dominando os intervalos de exibição de desenhos infantis e infanto-juvenis, outdoors, shoppings, nos mais variados segmentos de mercado.

Com isso, é cada vez mais comum ouvirmos crianças e adolescentes dizendo que saem para passear e “fazer comprinhas básicas”, que “precisam” comprar determinado brinquedo, roupa, celular, tablet...

Se levarmos em consideração a perspectiva sócio-histórica, compreenderemos que a geração atual já se apropriou dos recursos tecnológicos como naturais e estes, por sua vez, propiciam uma fonte riquíssima de informação e entretenimento.

A internet tornou-se objeto de desejo entre crianças e jovens e para exemplificar isto, o computador e, mais recentemente, os tablets, são os instrumentos essenciais para que se conectem a rede e os alvos de maior cobiça deste público.

            Os inúmeros cenários que se produzem para consumo, diversão e entreterimento do público infantil propiciam também a experimentação de sentimentos tais como o prazer, o descobrir-se e o comparar-se, imprimindo nestes novas maneiras de perceberem-se, como a seu corpo, seus desejos, buscando sempre uma adequação e normatização ao que está sendo oferecido, resultando em um consumismo desenfreado, onde o sujeito é compreendido pelo uso e posse de determinados produtos, o que pode ser exemplificado com a propaganda de brinquedos, onde este deixa de ter o fim ao qual foi criado originalmente, tornando-se um objeto de consumo através das propagandas nos meios midiáticos.

 
            Observamos, então, um grande paradoxo que cerca a concepção de infância atual, pois ao mesmo tempo em que se propagam os direitos ao bem estar da criança e a preservação da mesma, não são divulgados pela mídia referenciais para estas.

 
            De acordo com pesquisas realizadas, os programas educacionais voltados ao público infantil, segundo a indústria da mídia, foram criados para serem assistidos por pais e filhos juntos, com a finalidade de promover a interação entre estes. O fato é que tal finalidade pode não ocorrer de fato, pois, enquanto a criança está a assistir ao desenho ou programa, os pais ou seus cuidadores, estão nos seus afazeres domésticos ou profissionais. Além deste fator, o volume da televisão pode também dificultar esta interação.

            Alguns números para pensarmos: “Para cada hora de televisão a que uma criança menor de 2 anos assiste sozinha, ela gasta 52 minutos a menos por dia interagindo com seus pais ou irmãos. Para cada hora de televisão, há 9% menos tempo durante a semana e 11% menos tempo durante os finais de semana gasto em brincadeiras criativas para uma criança menor de 2 anos.” (Pediatrics - Jornal Oficial da Academia Americana de Pediatria)

 
 


            No documentário produzido por Marinha Farinha, "Criança - a alma do negócio" (link abaixo), temos outros dados alarmantes:
 
·         80% da influência de compra na família vem da criança;

·         Enquanto os pais só conversam com as crianças durante a noite ou aos finais de semana, a publicidade está falando com ela TODO O DIA!;

·         Com apenas 30 segundos, uma marca pode influenciar uma criança;

·         A criança brasileira é a que mais assiste à televisão no mundo, quase cinco horas por dia.

 

            Este tema ainda gera muita polêmica e inúmeros debates, mas nós, enquanto pais, educadores e profissionais, temos que estar atentos às influências sofridas pelas crianças e adolescentes, neste nosso mundo onde o apelo consumista se faz cada vez maior e presente nas relações humanas.
 
 
Bibliografia Utilizada
BELLONI, Maria Luiza; GOMES, Nilza Godoy. Infância, mídias e aprendizagem: autodidaxia e colaboração. Educ. Soc.,  Campinas,  v. 29,  n. 104, out.  2008.
DORNELLES, Leni Vieira. Infâncias que nos Escapam – da criança de rua à criança cyber. Petrópolis, RJ: Vozes, 2005. 109 p.
MARINHA FARINHA. Criança: a alma do negócio. Vídeo disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=ur9lIf4RaZ4.
Uso de mídias por crianças menores de 2 anos. Pediatrics - Jornal Oficial da Academia de Pediatria. 17 de outubro de 2011. Disponível em: http://biblioteca.alana.org.br/banco_arquivos/arquivos/Uso%20de%20mídia%20por%20crianças%20menores%20de%202%20anos.pdf
SILVEIRA NETTO, Carla Freitas; BREI, Vinícius Andrade; FLORES-PEREIRA, Maria Tereza. O fim da infância? As ações de marketing e a "adultização" do consumidor infantil. RAM, Rev. Adm. Mackenzie (Online),  São Paulo ,  v. 11, n. 5, Out.  2010.
SOUZA, Bruna Louise de Godoy Macedo de. A Criança do Século XXI: uma análise do sentido subjetivo  atribuído por crianças à própria infância. São Paulo: Universidade Paulista, 2012. 213 p.
 
 

 
 

 
 

domingo, 8 de setembro de 2013

Muito Prazer: Seu Filho! - Os desafios do educar na sociedade contemporânea


As crianças são indivíduos que necessitam de cuidado, pois estão em desenvolvimento, construindo suas experiências e suas vivências.
 
Assim, como o meio em que vivem influencia no seu desenvolvimento?
 
 

A primeira instituição social no qual a criança aprende a conviver é a “Família”. Esta é responsável pelo bem estar físico e emocional da criança, além de ser no seu seio que se desenvolvem as experiências e aprende a dar significado às suas vivências.
 
Dentro da família, alguns cenários se fazem importantes, como a qualidade da relação conjugal.
 
Conflitos entre o casal, são comuns, mas a maneira de resolvê-los é que vai interferir na relação do casal e, consequentemente, na educação e cuidado dos filhos.
 
Um casal muito envolvido em seus embates conjugais pode não ter disponibilidade para as necessidades dos filhos, criando um ambiente familiar pouco saudável.

Assim, é importante promover nos cônjuges, que também são pais, o respeito, a influência mútua e recíproca e a importância do diálogo e empatia, além de reforçarem e nutrirem o espírito de “equipe”.
 
 
A separação conjugal também pode interferir no cuidado para com os filhos, devendo ser compreendido que o vínculo parental é para sempre e que a tarefa educativa após o divórcio tem mais chances de dar certo quando os envolvidos na situação conseguem manter as fronteiras nítidas entre os vínculos conjugais e parentais.
  
 

Além destes fatores, a sociedade atual também interfere no cuidado com os filhos.

Vive-se em uma sociedade do aqui e agora, com uma preocupação narcisista do corpo, da beleza, dos bens de consumo, meios tecnológicos, não se pensando no futuro, apenas no consumo imediato e novos papeis sociais são exigidos da mulher e do homem.

Este cenário causa um distanciamento entre pais e filhos. Também não propicia o diálogo dentro de casa, a televisão domina o convívio familiar, as refeições são feitas individualmente, de maneira rápida e, em alguns casos, a comunicação entre os membros da família que convivem na mesma casa se dá apenas por meios como internet e celular.

As crianças, neste contexto, ficam delegadas aos cuidados de terceiros, avós, tios, fragilizando os vínculos afetivos entre pais e filhos, gerando sentimentos de culpa nos pais pelo pouco contato que tem com seus filhos.

Os pais não conseguem dar limites aos seus filhos, dizem "sim" para tudo e estressam-se com birras e os punem, batem e depois se arrependem, não oferecendo à criança um modelo seguro de papeis, limites e regras.

A criança necessita de atenção, cuidado, carinho e TEMPO dos adultos! Crianças amadas e educadas com a presença constante de seus pais tem maior probabilidade de se tornarem adultos mais felizes e mais realizados no futuro.

Então, como exercer autoridade com os filhos?

Através do afeto! Com isso, os pais demonstram aos filhos o amor que sentem por eles, aproximam-se carinhosamente e compreendem os sentimentos dos filhos, proporcionando confiança em um relacionamento seguro.

Dar limites significa proibir, limitar ou restringir atitudes da criança que não são adequadas socialmente e que podem colocá-la em risco. Favorece também o desenvolvimento da noção de responsabilidade pelos próprios atos e pelas suas consequências para si e para os outros.

A grande questão é COMO O LIMITE É IMPOSTO.
 

 

Quando o limite é dado através de castigos violentos ou psicológicos pode acarretar em sintomas como ansiedade, depressão, obsessividade, somatização e labilidade afetiva.

Pais acessíveis e receptivos sorriem, elogiam e encorajam seus filhos. Exprimem afetuosidade, mesmo sendo críticos quando o filho se comporta mal. Em geral, as crianças desejam agradar os pais carinhosos, portanto, estão motivados a fazer o que se espera deles e a aprender o que os pais gostariam que aprendesse.

Para compensar a ausência durante o dia, crie ambientes estimulantes no lar, passe mais tempo a noite com as crianças e nos finais de semana, pegando no colo, brincando. Deixe fotos e lembranças de momentos felizes; escreva bilhetinhos surpresas e coloque na lancheira, computador. Converse com seu filho!
 
 
 
Bibliografia Utilizada
 
 
FALCKE, Denise; ROSA, Larissa Wolff. A violência como instrumento educativo: uma história sem fim? In WAGNER, Adriana e col. Desafios Psicossociais da Família Contemporânea. Porto Alegre: Artmed, 2011. p. 150 - 165.
 
FILHO, José Martins. A Criança Terceirizada. São Paulo: Papirus, 2007. 112 p.
 
GRZYBOWSKI, Luciana Suárez. Ser pai e ser mãe: como compartilhar a tarefa educativa após o divórcio? In WAGNER, Adriana e col. Desafios Psicossociais da Família Contemporânea. Porto Alegre: Artmed, 2011. p. 112 - 122.
 
MOSMANN, Clarisse Pereira; ZORDAN, Eliana Picolli; WAGNER, Adriana. A qualidade conjugal como fator de proteção no ambiente familiar. In. ______________.  Desafios Psicossociais da Família Contemporânea. Porto Alegre: Artmed, 2011. p. 58 - 71.
 
SHAFFER, David; KIPP, Katherine. Psicologia do Desenvolvimento - infância e adolescência. 2a. Edição. São Paulo: Cengage Learning, 2012.
 
 

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Brincadeira de Criança: um assunto sério (Parte II)

Parte II
 
 
Vimos na primeira parte um pouco da história do brincar e das brincadeiras e as ideologias que são passadas através dos mesmos.
 
Nesta segunda parte será discutida a importância desta atividade para o desenvolvimento da criança.
 
Nos primeiros momentos de vida, a criança dá significados as suas ações e as suas reações, apreendendo as significações que permeiam seu meio cultural; significados estes que são transmitidos pelos adultos que são seus cuidadores e mediadores da relação da criança com o mundo. Através da mediação e de suas consequências, a criança desenvolve seu psiquismo pela internalização da realidade em que está inserida, podendo-se dizer que a individualidade tem sua origem na intersubjetividade.
 
O brincar se constitui como um espaço privilegiado de interação infantil, permitindo a constituição da criança como produto e produtor de sua história e cultura. Assim, o ato de brincar possibilita a compreensão da constituição do sujeito, pois tem em si os significados que foram produzidos ao longo da história e de cada sociedade, quanto os significados que surgem no próprio momento do brincar.
  
A partir da interação da criança com outras pessoas de maior experiência cultural e social, funções como a memória, atenção, percepção se aprimoram, através da linguagem que se é estabelecida.
 
 
 
Deste modo, a brincadeira é o primeiro momento de construção da imaginação e dá origem a processos psicológicos que são fundamentais para o desenvolvimento da criança.
 
 
 
Para a criança em idade pré-escolar o brincar de "faz-de-conta" constitui-se como a principal atividade, favorecendo o desenvolvimento de competências importantes para esta fase, como a abstração e o autocontrole.
 
Para satisfazer necessidades imediatas, a criança se envolve em um mundo de imaginação e ilusão, podendo neste mundo realizar seus desejos, ou seja, o brincar de "faz-de-conta" auxilia na superação que lhe é imposta pela cultura, pois ao não poder realizar o que observa o adulto fazer, brinca com a cena observada, por exemplo, ao desejar fazer comida como sua mãe faz, brinca de fazer comida para suas bonecas.
 
Este ato de utilizar um objeto como se fosse outro auxilia na descoberta das funções deste e, à medida em que a criança se desenvolve, passa da descoberta de objetos para as funções de papeis sociais, como nas brincadeiras em que se é "professora", "médico", "mãe que cuida dos filhos". 
 
 
 
Ao favorecer a abstração, as brincadeiras de "faz-de-conta" favorecem o desenvolvimento cognitivo.
 
Os jogos coletivos de "faz-de-conta" também são de suma importância para o desenvolvimento do comportamento social, pois as crianças, ao brincarem umas com as outras, coordenam suas ações com as das demais em uma troca de papeis e representações.
 
Além destes fatores, ao se relacionarem com pares, as crianças desenvolvem habilidades necessárias para fortalecer as relações vividas, pois aprimoram-se a sociabilidade, a intimidade, o senso de pertencimento e identidade, a liderança, a motivação e habilidades de comunicação e cooperação
 
A brincadeira também desenvolve o autocontrole, pois todo o brincar tem regras, algumas mais explícitas e outras mais implícitas, dependendo do tipo de jogo, e que favorecem a autodisciplina, auxiliando a criança a lidar com a impulsividade.
 
Na brincadeira a criança adquire a capacidade de administrar a sua relação com o outro e com o ambiente e a realidade em que vive, assimilando e apropriando-se dos significados das ações humanas, para constituir-se como sujeito.
 
O brincar favorece também o desenvolvimento intelectual na medida em que proporciona um ambiente no qual a linguagem é utilizada para a comunicação, bem como a utilização recursos para o desenvolvimento da fantasia, do planejamento das estratégias a serem utilizadas e a resolução de problemas.
 
Assim, entre as contribuições do brincar para o desenvolvimento da criança, pode-se citar:
 
  • Favorecimento da socialização;
  • Internalização de valores, papeis e hábitos, através da imitação do comportamento adulto;
  • Na comparação com outras crianças, desenvolve uma auto avaliação;
  • Ao ajudar outra criança, desenvolve a moral;
  • Com os jogos de regras, adquire autocontrole, autodeterminação e mantém seus impulsos subordinados;
  • Utilização de representações mentais, libertando-se de situações concretas através de situações imaginárias;
  • No brinquedo, tem a possibilidade de resolver seus conflitos, tensões e limitações da infância.
 
 
 
Posto isto, deixemos e estimulemos nossas crianças a brincarem, sejam sozinhas, em grupo e também com nossa participação, pois nesta interação, auxiliamos em seu desenvolvimento, bem como também permitimos que a nossa criança reapareça em um instante, nos deleitando com uma atividade tão prazerosa, além de desfrutarmos de um momento de afeto e carinho com nossos pequenos!
 
 
Bibliografia Utilizada
 
 
BOIKO, Vanessa Alessandra Thomaz; ZAMBERLAN, Maria Aparecida Trevisan. A perspectiva sócio-construtivista na psicologia e na educação: o brincar na pré-escola. Psicol. estud.,  Maringá,  v. 6,  n. 1, jun.  2001.
 
SANTOMÉ, Jurjo Torres. A Socialização Infantil por meio do Jogo e do Brinquedo: discursos explícitos e ocultos sobre o jogo e a brincadeira nas instituições escolares. In CANER, Ana e MOREIRA, Flavio Barbosa. Ênfases e Omissões no Currículo. Campinas, SP: Papirus, 2001, p. 89 – 116.

SHAFFER, David R. e KIPP, Katherine. Psicologia do Desenvolvimento – infância e adolescência. 8ª edição. São Paulo; Cengage Learnig, 2011.

VIEIRA, Therezinha; CARVALHO, Alysson; MARTINS, Elizabeth. Concepções do Brincar na Psicologia. In CARVALHO, Alysson; SALLES, Fátima; GUIMARÃES, Marília; DEBORTOLI, José Alfredo (orgs). Brincar(es). Belo Horizonte: UFMG, 2009. p. 29 - 50.
 
 VYGOTSKY, Lev Semenovich. A Formação Social da Mente. 4ª edição. São Paulo: Martins Fontes, 1991. 224 p.
 
ZANELLA, Andréa Vieira; ANDRADA, Edla Grisard Caldeira de. Processos de significação no brincar: problematizando a constituição do sujeito. Psicol. estud.,  Maringá,  v. 7,  n. 2, dez.  2002 .







domingo, 18 de agosto de 2013

Brincadeira de Criança: um assunto sério!

Parte I



Quando pensamos em crianças e seu universo, automaticamente pensamos em brinquedos, brincadeiras e jogos, ou seja, criança e brincar são indissociáveis, ou pelo menos, gostaríamos que a vida de todas as crianças fosse permeada por tais atividades...

O brincar é mais sério do que se imagina e, pensando nisto, esta temática será dividida em dois textos. Neste primeiro teremos a história do brincar, pois, assim como nós e tudo o que conhecemos, este ato teve uma origem e, ao contrário do que acreditamos, não nasceu exclusivamente para e com as crianças!

Discutiremos também, nesta primeira parte, as ideologias transmitidas nos brinquedos.

Para o segundo texto, teremos como tópico principal a contribuição desta atividade para o desenvolvimento da criança.

Uma coisa é certa, a presença de brincadeiras sempre foi importante em cada sociedade e momento histórico cultural, assumindo diversas configurações e características em cada uma delas.

Nas sociedades antigas, como a Grécia, os brinquedos tinham relação com cerimônias religiosas e tanto adultos como crianças participavam de atividades envolvendo jogos e brincadeiras, visto que era uma maneira de promover laços de afetividade e união entre os membros da sociedade.




Na Idade Média, os brinquedos serviam como modelos de imitação do comportamento dos adultos para as crianças, exemplos disso são o cavalo de pau e a espada.

      



Com o surgimento do Cristianismo, os jogos passam a ser considerados delituosos e apenas no período do Renascimento voltaram a fazer parte do cotidiano da juventude.

Como brincadeiras, temos no século XVI jogos com bola e pipa e no século XIII, a invenção de fantoches e a popularização de jogos educativos, antes exclusivos aos nobres e príncipes.





Um fato curioso é não se ter uma data específica do surgimento das bonecas, pois seu uso remonta desde imagens de crianças e mulheres em rituais religiosos e de bruxaria, além de servirem de manequim às mulheres abastadas das sociedades antigas.


  
Quanto à fabricação dos brinquedos, esta ficava por conta dos artesãos. Na segunda metade do século XIX os brinquedos deixam de ser confeccionados por tais profissionais, pois ficam mais sofisticados e, com o advento do capitalismo, passam a ter fins lucrativos, deixando-se a finalidade do lúdico para o consumo.


Durante a Primeira Guerra Mundial, os jogos militares ficaram em ascensão e com o seu fim, surgem atividades ligadas ao esporte, como autoramas, patins etc.






A sociedade atual, configurada pelo consumismo, tem como premissa a preocupação com a segurança e com as saúde, desta maneira, os brinquedos são fabricados em plástico. O mercado da publicidade investe nesta nova configuração, difundindo na criança o desejo de ter determinados brinquedos que sigam padrões específicos.




Crescem também espaços físicos para brincar, onde só se tem acesso mediante pagamento, denotando o caráter de poder e das classes sociais que o brinquedo e os jogos assumem no atual momento histórico cultural.



Assim, observamos que os jogos e os brinquedos difundem as ideologias dominantes na sociedade da época. O que podemos observar atualmente como modelos transmitidos nos brinquedos são:

  • Sexistas: brinquedos com estereótipos conservadores e machistas;
  • Racistas: brinquedos em que se predomina a etnia branca, com cabelos claros e lisos e olhos claros;
  • Militaristas: brinquedos que visam a competição, violência machista e utilização de armas de brinquedos;
  • Classistas: brinquedos onde as pessoas são representadas com empregos, prestígio social e que morem em centros urbanos.
Posto isto, como então o brincar influência no desenvolvimento social, afetivo e psicológico da criança de hoje? Isto fica para nosso próximo texto! Até lá!


Bibliografia utilizada


ARIÈS, Philippe. História Social da Criança e da Família. 2ª edição. Rio de Janeiro, 2006. 196 p.


KISHIMOTO, Tizuko Morchida. O Brinquedo na Educação – considerações históricas. São Paulo: FDE, 1995. p. 39-45.

MEIRA, Ana Maria. Benjamim, os Brinquedos e a Infância Contemporânea. Psicol. Soc., Porto Alegre, v. 15, n. 2, dez, 2003.


SANTOMÉ, Jurjo Torres. A Socialização Infantil por meio do Jogo e do Brinquedo: discursos explícitos e ocultos sobre o jogo e a brincadeira nas instituições escolares. In CANER, Ana e MOREIRA, Flavio Barbosa. Ênfases e Omissões no Currículo. Campinas, SP: Papirus, 2001, p. 89 – 116.


SOUZA, Bruna Louise de Godoy Macedo de. A criança do século XXI: Uma análise do sentido subjetivo atribuído por crianças à própria infância. São Paulo: Universidade Paulista - UNIP, 2012. 213 p. 


VOLPATO, Gildo. Jogos e Brinquedos: reflexões a partir da teoria crítica. Educ. Soc. Campinas, vol. 23, n. 81, p. 217 – 226, dez. 2002.